Por Fernanda Ribeiro, fisiologista do exercício

“Cardio queima gordura, musculação constrói músculo” — essa é uma das frases mais repetidas nas academias. Mas será que ela reflete o que a ciência realmente mostra? A resposta é mais nuançada do que o senso comum sugere, e entender essa diferença pode economizar meses de esforço mal direcionado.

O que uma meta-análise recente revela

Uma revisão sistemática com metanálise publicada em 2024, que comparou treino aeróbico, treino de força e treino combinado em adultos saudáveis, encontrou que, quando o volume de trabalho é equiparado entre os grupos, a perda percentual de gordura corporal é semelhante entre as modalidades. No entanto, o treino aeróbico isolado e o treino combinado se mostraram mais eficazes do que o treino de força isolado para reduzir a massa de gordura em termos absolutos (PMC/NCBI).

Importante: nesse mesmo estudo, incluir musculação no treino combinado não prejudicou a perda de gordura — pelo contrário, ajudou a preservar a massa magra durante o processo.

Cada modalidade ativa o corpo de um jeito diferente

O treino cardiovascular utiliza principalmente o sistema aeróbico, dependente de oxigênio, promovendo maior resistência e eficiência cardiovascular. Já o treino de força recruta predominantemente os sistemas fosfagênio e glicolítico anaeróbico, favorecendo ganhos de força e massa muscular (Examine). Ambos podem gerar perda de gordura, desde que exista déficit calórico — a diferença está em quais adaptações fisiológicas cada um prioriza.

A vantagem “escondida” da musculação: o efeito pós-treino

Um dos argumentos mais citados a favor do treino de força é o consumo excessivo de oxigênio pós-exercício (EPOC, na sigla em inglês) — o corpo continua gastando mais energia por um período após o treino, enquanto se recupera do esforço (Train Daly). Esse efeito é real, mas moderado: pesquisas comparando sessões de volume equivalente mostram que o EPOC contribui de forma discreta para o gasto calórico total da semana, funcionando mais como um bônus do que como o principal motor da perda de gordura (TNT Strength Oakland).

Além disso, o treino de força tende a ser mais eficaz do que o cardio isolado para aumentar a taxa metabólica de repouso, já que mais massa muscular está associada a maior gasto calórico mesmo em repouso, segundo uma revisão sistemática de 2020 (Healthline).

Então qual escolher?

  • Cardio isolado: tende a gerar maior perda absoluta de gordura no curto prazo, especialmente útil quando o objetivo é reduzir peso rapidamente.
  • Musculação isolada: perde para o cardio em perda de gordura absoluta, mas constrói e preserva massa magra — essencial para manter o metabolismo elevado a longo prazo.
  • Treino combinado (cardio + musculação): é frequentemente apontado como a estratégia mais equilibrada, unindo a eficácia do cardio na perda de gordura com a capacidade da musculação de preservar massa magra durante o processo (TNT Strength Oakland).

Recomendação prática

Diretrizes de saúde pública sugerem cerca de 150 minutos semanais de atividade física moderada (ou 75 minutos de atividade vigorosa), combinados a pelo menos 2 dias de treino de força, tanto para emagrecimento quanto para saúde geral (Healthline).

Na prática, isso significa que a pergunta “cardio ou musculação” muitas vezes tem uma resposta melhor do que escolher um dos dois: combinar as duas modalidades, ajustando as proporções conforme o objetivo — mais cardio para quem prioriza perda de peso rápida, mais musculação para quem prioriza composição corporal e manutenção de resultados a longo prazo.

Conclusão

Nenhuma das duas modalidades é “melhor” de forma absoluta — elas atuam em frentes diferentes e se complementam. Se o objetivo é emagrecer preservando o máximo de massa muscular possível, a combinação de treino de força com um volume moderado de cardio tende a trazer os melhores resultados sustentáveis, segundo a evidência científica mais recente.


Referências científicas:

Fernanda Ribeiro, fisiologista do exercício